Categoria: Cirurgia Vascular | Autora: Dra. Nelise Marvulo – CRM-SP 129.367 – RQE 46207 | 462071 | Cirurgiã Vascular e Ecografista Vascular
As férias de julho se aproximam — e com elas, viagens longas de avião. O que muita gente não sabe é que ficar sentado por horas em um assento apertado, com pouca hidratação e mobilidade reduzida, é um dos cenários mais propícios para o desenvolvimento de trombose venosa profunda — popularmente conhecida como a “trombose do viajante” ou síndrome da classe econômica.
Não é exagero e não é coisa rara. A trombose associada a viagens é um evento real, documentado e potencialmente grave. A boa notícia: com medidas simples e acessíveis, o risco pode ser significativamente reduzido — especialmente para quem já tem fatores de risco vasculares.
Neste artigo, a Dra. Nelise Marvulo, cirurgiã vascular e ecografista vascular com consultório nos Jardins, em São Paulo, explica por que viagens longas aumentam o risco de trombose, quem precisa se preocupar mais, o que fazer antes, durante e após a viagem e quando buscar avaliação médica urgente.
Índice
- O que é a trombose do viajante?
- Por que o avião aumenta o risco de trombose?
- Quanto tempo de voo é perigoso?
- Quem tem mais risco de trombose em viagens?
- Quais são os sintomas de trombose após uma viagem?
- Como prevenir a trombose na viagem de avião?
- Meia de compressão no avião: funciona mesmo?
- Preciso tomar anticoagulante para viajar?
- O que fazer se suspeitar de trombose após uma viagem?
- Trombose também acontece em viagens de carro e ônibus?
- Perguntas frequentes
O que é a trombose do viajante? {#o-que-e-a-trombose-do-viajante}
A trombose do viajante — termo popular para a trombose venosa profunda (TVP) associada a viagens — é a formação de um coágulo sanguíneo dentro de uma veia profunda, geralmente nas pernas, durante ou após uma viagem longa.
O nome “síndrome da classe econômica” surgiu porque os primeiros casos descritos na literatura médica envolviam passageiros em assentos mais apertados, com menos espaço para movimentar as pernas. Mas o risco não é exclusivo da classe econômica — qualquer passageiro imobilizado por horas está sujeito, independentemente do assento.
A TVP em si já é preocupante, mas o maior perigo é a sua complicação mais temida: a embolia pulmonar — quando o coágulo se desprende da veia, migra pela corrente sanguínea e se aloja nas artérias pulmonares, podendo causar morte súbita. A embolia pulmonar é responsável por uma parcela significativa das mortes ocorridas durante ou logo após voos longos.
Por que o avião aumenta o risco de trombose? {#por-que-o-aviao-aumenta-o-risco}
A combinação de fatores dentro de uma aeronave cria condições quase ideais para a formação de coágulos — a chamada Tríade de Virchow:
- Estase venosa (sangue parado)
Ficar sentado por horas com as pernas dobradas e imóveis reduz drasticamente o fluxo venoso nos membros inferiores. A musculatura da panturrilha — que normalmente age como uma bomba, empurrando o sangue de volta ao coração — fica inativa. O sangue se acumula nas veias das pernas e a velocidade do fluxo cai.
- Desidratação
A umidade relativa do ar dentro das cabines pressurizada é extremamente baixa — em torno de 10% a 20%, muito abaixo dos 40% a 60% considerados confortáveis. Isso aumenta as perdas insensíveis de água pelo organismo. Somado ao consumo de álcool e bebidas com cafeína (que têm efeito diurético), o resultado é uma desidratação relativa que aumenta a viscosidade do sangue — tornando-o mais espesso e propenso a coagular.
- Pressão na região poplítea
A borda do assento pressiona a região atrás do joelho — onde passa a veia poplítea, uma das principais veias profundas da perna. Essa compressão parcial prejudica ainda mais o retorno venoso.
- Pressão da cabine
A pressão atmosférica reduzida dentro da aeronave pode alterar ligeiramente o equilíbrio hemostático e favorecer a hipercoagulabilidade em pessoas com predisposição.
Esses quatro fatores atuando juntos por horas a fio criam as condições perfeitas para a formação de trombos.
Quanto tempo de voo é perigoso? {#quanto-tempo-de-voo-e-perigoso}
O risco de TVP associada a viagens aumenta progressivamente com a duração do voo:
- Voos < 4 horas: risco muito baixo para pessoas sem fatores de risco
- Voos de 4 a 8 horas: risco moderado — recomendadas medidas preventivas básicas
- Voos > 8 horas: risco significativamente aumentado — medidas preventivas são essenciais para todos
- Voos > 12 horas (intercontinentais): risco elevado — especialmente para quem tem fatores de risco associados
Estudos mostram que o risco de TVP dobra a cada 2 horas adicionais de voo acima de 4 horas. Um voo de São Paulo a Paris (aproximadamente 12 horas) representa risco consideravelmente maior do que uma viagem doméstica de 2 horas.
Importante: o risco não termina quando o avião pousa. A maioria dos eventos trombóticos associados a viagens ocorre nas primeiras 24 a 48 horas após o desembarque — quando o coágulo já formado pode se desprender com a retomada da movimentação.
Quem tem mais risco de trombose em viagens? {#quem-tem-mais-risco}
Algumas pessoas têm risco significativamente maior e precisam de atenção especial antes de embarcar em voos longos:
Fatores de risco que aumentam muito o risco:
- Histórico pessoal de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar
- Trombofilia conhecida (Fator V de Leiden, mutação da protrombina, deficiências de proteína C, S ou antitrombina)
- Câncer ativo em tratamento
- Cirurgia de grande porte nas últimas 4 a 8 semanas
- Imobilização prolongada recente (fratura, gesso, repouso no leito)
- Gravidez e puerpério (até 6 semanas após o parto)
Fatores de risco que elevam moderadamente o risco:
- Uso de anticoncepcionais orais combinados ou terapia hormonal
- Obesidade (IMC > 30)
- Idade acima de 60 anos
- Varizes extensas com insuficiência venosa
- Histórico familiar de trombose (parentes de primeiro grau)
- Doenças inflamatórias crônicas (lúpus, doença de Crohn)
- Tabagismo
Risco cumulativo: quanto mais fatores de risco presentes, maior o risco total. Uma mulher grávida, obesa, com histórico familiar de trombose que vai fazer um voo de 12 horas tem risco muito mais elevado do que uma pessoa jovem e saudável no mesmo voo.
Quais são os sintomas de trombose após uma viagem? {#quais-sao-os-sintomas}
Os sintomas podem aparecer durante a viagem, logo após o desembarque ou até dias depois. Fique atento a:
Sintomas de TVP nas pernas:
- Inchaço súbito em uma das pernas — geralmente assimétrico (uma perna muito mais inchada que a outra)
- Dor na panturrilha ou na coxa, que pode piorar ao caminhar ou ao apalpá-la
- Calor e vermelhidão localizada na perna afetada
- Tensão ou endurecimento da pele na região afetada
- Veias superficiais mais visíveis que o habitual
Sintomas de embolia pulmonar — emergência médica:
- Falta de ar súbita, sem causa aparente
- Dor no peito que piora ao respirar fundo
- Tosse — às vezes com sangue
- Batimento cardíaco acelerado ou irregular
- Tontura, suor frio ou desmaio
Se você perceber qualquer um dos sintomas de embolia pulmonar após uma viagem, ligue 192 (SAMU) ou vá imediatamente ao pronto-socorro mais próximo. Não espere. Não dirija. Chame ajuda.
Como prevenir a trombose na viagem de avião? {#como-prevenir}
A boa notícia é que medidas simples e acessíveis reduzem significativamente o risco de trombose em viagens:
Antes de embarcar
Consulta vascular pré-viagem Para quem tem fatores de risco, a avaliação com cirurgião vascular antes de viagens longas é altamente recomendada. O especialista avalia o risco individual, indica as medidas preventivas adequadas e, quando necessário, prescreve anticoagulação profilática.
Hidrate-se antes do voo Chegue ao aeroporto bem hidratado. Beba pelo menos 500 ml de água nas horas que antecedem o embarque.
Evite roupas apertadas Vista roupas confortáveis, sem elásticos que comprimam a região da virilha ou da panturrilha.
Durante o voo
Movimente-se regularmente Levante-se e caminhe pelo corredor a cada 1 a 2 horas. Se não puder levantar, faça exercícios sentado:
- Flexão e extensão dos pés (como acelerar e frear)
- Rotação dos tornozelos
- Contração e relaxamento da musculatura da panturrilha
- Elevação dos joelhos alternadamente
Mantenha-se hidratado Beba água regularmente durante todo o voo — pelo menos 200 ml a cada hora. Evite álcool e refrigerantes (têm efeito diurético e favorecem a desidratação).
Escolha o assento estrategicamente Assentos na janela limitam a movimentação. Se possível, prefira assento no corredor — facilita levantar e caminhar. Em voos longos, assentos com mais espaço para as pernas reduzem a compressão da veia poplítea.
Não cruze as pernas Cruzar as pernas comprime as veias e reduz ainda mais o fluxo venoso. Mantenha os pés apoiados no chão ou em um apoio.
Use meia de compressão A medida preventiva mais eficaz durante o voo (veja seção específica abaixo).
Após o desembarque
Continue se movimentando O risco não termina com o desembarque. Caminhe assim que sair do avião e mantenha a movimentação nas horas seguintes.
Mantenha a hidratação Continue bebendo água nas horas após o desembarque.
Fique atento aos sintomas Observe as pernas nas primeiras 24 a 72 horas após viagens longas. Qualquer inchaço súbito ou dor inexplicável merece avaliação médica.
Meia de compressão no avião: funciona mesmo? {#meia-de-compressao-no-aviao}
Sim — e há evidências científicas que comprovam.
Estudos randomizados mostram que o uso de meias de compressão graduada durante voos longos reduz significativamente a incidência de TVP assintomática e de edema nos membros inferiores. Uma revisão da Cochrane — considerada a mais rigorosa base de evidências em medicina — concluiu que meias de compressão reduzem em até 90% o risco de TVP superficial e em cerca de 50% o risco de TVP profunda assintomática em viagens longas.
Como usar corretamente:
- Calce a meia antes de embarcar, de preferência ainda em casa ou no aeroporto, enquanto as pernas ainda não estão inchadas
- Use durante todo o voo — não retire a meia durante o voo
- Retire a meia após o desembarque e depois de ter caminhado um pouco
Qual grau de compressão usar? Para prevenção em viagens, meias de 15 a 30 mmHg (grau 1 ou 2) são as mais indicadas para a maioria das pessoas. Para quem tem insuficiência venosa, varizes ou histórico de trombose, o grau deve ser definido pelo cirurgião vascular.
Meias comuns, meias de moda ou meias com elástico demarcado não oferecem o gradiente de compressão adequado. Use meias de compressão terapêutica — que podem ser encontradas em farmácias, lojas de artigos médicos ou com prescrição do cirurgião vascular.
Preciso tomar anticoagulante para viajar? {#preciso-tomar-anticoagulante}
Para a maioria das pessoas, as medidas preventivas gerais — hidratação, movimentação e meia de compressão — são suficientes.
A anticoagulação profilática é reservada para pessoas com alto risco de trombose, como:
- Histórico pessoal de TVP ou embolia pulmonar
- Trombofilia conhecida de alto risco
- Cirurgia de grande porte recente (últimas 4 a 8 semanas)
- Imobilização prolongada recente
- Combinação de múltiplos fatores de risco moderados
Quando indicada, a anticoagulação profilática para viagens é feita geralmente com heparina de baixo peso molecular (HBPM) — injeção subcutânea aplicada algumas horas antes do embarque. Os anticoagulantes orais diretos (DOACs) também podem ser considerados em alguns casos.
A decisão de usar anticoagulante para viagem deve ser tomada em consulta com o cirurgião vascular — não se automedique. Anticoagulantes têm riscos reais de sangramento e a indicação precisa ser individualizada.
A Dra. Nelise Marvulo realiza avaliação pré-viagem para pacientes com fatores de risco, define o protocolo preventivo mais adequado e, quando necessário, prescreve anticoagulação profilática. Atende também por telemedicina para todo o Brasil e Exterior — o que facilita a consulta pré-viagem sem necessidade de deslocamento.
O que fazer se suspeitar de trombose após uma viagem? {#o-que-fazer-se-suspeitar}
Não ignore os sintomas. Não espere melhorar espontaneamente.
Se você perceber inchaço assimétrico em uma perna, dor na panturrilha ou na coxa sem causa aparente nas horas ou dias após uma viagem longa:
- Procure um serviço de emergência ou o cirurgião vascular com urgência
- O exame indicado é o eco Doppler venoso com urgência — que pode confirmar ou descartar a TVP em minutos
- Se confirmada, o tratamento com anticoagulantes deve ser iniciado imediatamente
- Não massageie a perna com suspeita de TVP — o coágulo pode se desprender e causar embolia pulmonar
Para sintomas de embolia pulmonar (falta de ar súbita, dor no peito, desmaio), vá imediatamente ao pronto-socorro ou chame o SAMU (192). Não espere.
Trombose também acontece em viagens de carro e ônibus? {#viagens-de-carro-e-onibus}
Sim. A trombose associada a viagens não é exclusiva do avião — qualquer viagem longa com imobilização prolongada oferece risco semelhante.
Viagens de carro ou ônibus acima de 4 a 6 horas, especialmente sem paradas regulares, criam as mesmas condições de estase venosa. A diferença é que no carro é mais fácil parar e caminhar — o que deve ser feito a cada 1 a 2 horas.
Cuidados específicos para viagens de carro ou ônibus:
- Pare a cada 1 a 2 horas e caminhe por pelo menos 5 a 10 minutos
- Não dirija por muitas horas seguidas sem pausas
- Mantenha-se hidratado
- Use meia de compressão se tiver fatores de risco
- No ônibus, levante-se e caminhe pelo corredor quando possível ou faça exercícios com os pés sentado
Perguntas Frequentes {#perguntas-frequentes}
Posso viajar de avião se já tive trombose?
Sim, mas com cuidados adicionais. Quem já teve TVP tem risco aumentado de recorrência e deve sempre consultar o cirurgião vascular antes de viagens longas. Dependendo do tempo decorrido desde o evento, do uso atual de anticoagulante e de outros fatores, o médico definirá o protocolo preventivo mais seguro.
Posso viajar durante a gravidez?
Viagens aéreas durante a gravidez são permitidas na maioria dos casos — consulte seu obstetra para verificar se há restrições específicas à sua gestação. Como a gravidez já aumenta o risco de trombose, medidas preventivas são especialmente importantes: hidratação, movimentação, meia de compressão e, em alguns casos, anticoagulação profilática com orientação médica.
Tomar AAS (aspirina) previne trombose em viagens?
Não há evidências suficientes de que o AAS previna eficazmente a TVP associada a viagens. O AAS atua principalmente nas plaquetas (prevenção de trombose arterial) e tem menor efeito sobre a trombose venosa. A meia de compressão e a movimentação são as medidas com melhor evidência para prevenção.
Quanto tempo após uma cirurgia posso viajar de avião?
Depende do tipo de cirurgia e da recuperação. Em geral, cirurgias de grande porte aumentam o risco de TVP por 4 a 8 semanas. Viagens longas nesse período devem ser discutidas com o cirurgião responsável e o cirurgião vascular, que avaliará a necessidade de anticoagulação profilática.
A meia de compressão pode ser usada por qualquer pessoa?
A meia de compressão de grau 1 (15–20 mmHg) é segura para a maioria das pessoas. Contraindicações incluem doença arterial periférica grave (isquemia dos membros) — por isso, quem tem histórico de problemas arteriais deve consultar o médico antes de usar. Para graus mais altos de compressão, sempre prescrição médica.
O plano de saúde cobre a consulta pré-viagem com cirurgião vascular?
A consulta com cirurgião vascular geralmente tem cobertura pelos planos de saúde quando há indicação clínica. A Dra. Nelise Marvulo não atende convênios, mas fornece toda a documentação necessária para reembolso junto ao plano de saúde do paciente.
Posso viajar usando anticoagulante?
Sim — pacientes em uso de anticoagulantes podem viajar, mas com alguns cuidados adicionais: carregar medicamentos na bagagem de mão, ter receita e relatório médico em português e no idioma do país de destino, e saber onde buscar atendimento médico no destino em caso de sangramento. Converse com a Dra. Nelise Marvulo sobre os cuidados específicos para o seu caso.
Viaje com Segurança — Cuide da Sua Circulação Antes de Embarcar
As férias de julho merecem ser aproveitadas com saúde. Uma consulta vascular antes de uma viagem longa pode identificar fatores de risco, definir o protocolo preventivo adequado e evitar um evento que pode arruinar — ou encerrar — a viagem.
A Dra. Nelise Marvulo é cirurgiã vascular e ecografista vascular, com atendimento individualizado no Jardim Paulista (Jardins), em São Paulo. Realiza avaliação pré-viagem para pacientes com fatores de risco e acompanha o diagnóstico e tratamento de trombose, varizes, vasinhos, lipedema, linfedema e check-up vascular completo. Atende também por telemedicina para todo o Brasil e Exterior — consulta pré-viagem sem sair de casa.
A Dra. Nelise não atende convênios, mas fornece toda a documentação necessária para reembolso junto ao plano de saúde do paciente.
📍 Jardim Paulista (Jardins) – São Paulo, SP 💻 Telemedicina disponível para todo o Brasil e Exterior
Dra. Nelise Marvulo – Cirurgiã Vascular e Ecografista Vascular CRM-SP 129.367 – RQE 46207 | 462071
As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento devem ser sempre individualizados por um especialista após avaliação clínica.