Categoria: Cirurgia Vascular | Autora: Dra. Nelise Marvulo – CRM-SP 129.367 – RQE 46207 | 462071 | Cirurgiã Vascular e Ecografista Vascular
Você sente dor nas pernas ao caminhar que melhora quando para? Os pés ficam frios mesmo em dias quentes? Surgiu uma ferida no pé ou na perna que não cicatriza? Esses podem ser sinais de doença arterial periférica (DAP) — uma condição que obstrui progressivamente as artérias que levam sangue para os membros inferiores e que, quando ignorada, pode levar à amputação.
A DAP é muito menos conhecida do que o infarto ou o AVC — mas pertence à mesma família: é causada pela mesma aterosclerose que entope as coronárias e as artérias do cérebro. E assim como essas condições, é silenciosa nos estágios iniciais, progressiva e potencialmente fatal se não tratada. A diferença é que, identificada a tempo, tem tratamento eficaz e a amputação pode ser evitada na grande maioria dos casos.
Neste artigo, a Dra. Nelise Marvulo, cirurgiã vascular e ecografista vascular com consultório nos Jardins, em São Paulo, explica o que é a doença arterial periférica, quais são os sintomas que não devem ser ignorados, quem tem mais risco, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento.
Índice
- O que é doença arterial periférica?
- Por que a DAP acontece?
- Quais são os sintomas da doença arterial periférica?
- Claudicação intermitente: o sintoma mais característico
- Isquemia crítica: quando a DAP vira emergência
- Quem tem mais risco de desenvolver DAP?
- DAP e diabetes: uma combinação perigosa
- Como é feito o diagnóstico?
- Quais são os tratamentos disponíveis?
- DAP e risco cardiovascular: a conexão importante
- Perguntas frequentes
O que é doença arterial periférica?
A doença arterial periférica (DAP) — também chamada de doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) ou insuficiência arterial periférica — é o estreitamento ou obstrução das artérias que irrigam os membros inferiores (e, em menor frequência, os membros superiores), causado principalmente pela aterosclerose: o acúmulo progressivo de placas de gordura, colesterol, cálcio e células inflamatórias na parede interna das artérias.
À medida que essas placas crescem, elas estreitam o lúmen arterial — o espaço interno por onde o sangue flui. Quando o estreitamento é moderado, os músculos das pernas recebem sangue suficiente em repouso, mas não durante o esforço — daí a dor ao caminhar que melhora com o descanso. Quando o estreitamento é grave, o fluxo é insuficiente mesmo em repouso — causando dor constante, feridas que não cicatrizam e risco de gangrena.
A DAP afeta entre 10% e 15% da população acima de 70 anos — mas é subdiagnosticada porque seus sintomas iniciais são frequentemente atribuídos ao “cansaço” ou ao envelhecimento normal.
Por que a DAP acontece?
A causa central é a aterosclerose — a mesma doença que causa infarto do miocárdio e AVC. O processo aterosclerótico começa silenciosamente na segunda ou terceira décadas de vida, com a deposição de lipídeos na parede arterial, e progride ao longo de décadas, acelerando na presença de fatores de risco.
Como a aterosclerose progride nas artérias das pernas:
- Lesão do endotélio (revestimento interno da artéria) por fatores como tabagismo, hipertensão e diabetes
- Depósito de LDL-colesterol na parede arterial
- Reação inflamatória — formação da placa aterosclerótica
- Crescimento progressivo da placa — estreitamento arterial
- Possível ruptura da placa — formação de trombo agudo, com obstrução súbita
As artérias mais frequentemente afetadas nos membros inferiores são a aorta abdominal e ilíacas (trecho entre o abdômen e a virilha), a artéria femoral (na coxa) e a artéria poplítea (atrás do joelho). A localização da obstrução determina em qual região da perna os sintomas aparecem.
Quais são os sintomas da doença arterial periférica?
A DAP evolui por estágios, com sintomas progressivamente mais graves:
Estágio I — Assintomático
A maioria dos pacientes com DAP confirmada ao exame não tem sintomas — o organismo compensa a obstrução parcial por vasodilatação e desenvolvimento de circulação colateral. Nessa fase, o diagnóstico só é feito por rastreamento (medição do índice tornozelo-braquial) em pessoas com fatores de risco.
Estágio II — Claudicação intermitente
Dor, câimbra ou cansaço intenso nas pernas ao caminhar, que melhora completamente com o repouso (geralmente em 2 a 5 minutos) e reaparece ao retomar a caminhada. A dor ocorre porque os músculos em esforço demandam mais oxigênio do que as artérias estreitadas conseguem fornecer.
A localização da dor indica o nível da obstrução:
- Panturrilha: obstrução femoral ou poplítea (mais comum)
- Coxa e glúteo: obstrução ilíaca ou aorto-ilíaca
- Pé: obstruções mais distais (artérias tibiais)
Estágio III — Dor em repouso
Dor constante nos pés e artelhos, especialmente à noite quando o paciente está deitado. O paciente frequentemente dorme com a perna pendente para fora da cama — a posição pendente aumenta levemente o fluxo por gravidade. É sinal de isquemia grave.
Estágio IV — Lesões tróficas (úlceras e gangrena)
Feridas que não cicatrizam, úlceras isquêmicas e gangrena nos dedos, pé ou perna — pela insuficiência de fluxo sanguíneo para manter a integridade tecidual.
Claudicação intermitente: o sintoma mais característico
A claudicação intermitente — do latim claudicare, mancar — é o sintoma mais típico e mais frequente da DAP. Tem características muito específicas que a distinguem de outras causas de dor nas pernas:
Características da claudicação arterial:
- Aparece durante o exercício (caminhada, subir escadas)
- É reproduzível — aparece sempre após percorrer distância semelhante
- Melhora rapidamente com o repouso — em 2 a 5 minutos, sem necessidade de sentar
- Reaparece ao retomar o exercício
- Localização: panturrilha (mais comum), coxa, glúteo ou pé
Como diferenciar claudicação arterial de outras causas de dor nas pernas:
| Característica | Claudicação Arterial | Dor Venosa | Dor Neurológica (Ciática) |
|---|---|---|---|
| Aparece com exercício? | Sim, sempre | Piora, mas presente em repouso | Variável |
| Melhora com repouso parado? | Sim, rapidamente | Parcialmente | Variável |
| Localização | Panturrilha, coxa, glúteo | Perna inteira | Lombar irradiando para perna |
| Pé frio? | Frequente | Não | Não |
| Pulsos arteriais | Reduzidos ou ausentes | Normais | Normais |
Atenção: muitos pacientes atribuem a claudicação ao “cansaço normal da idade” e param de caminhar para evitar a dor — o que piora o sedentarismo e mascara a progressão da doença. Se você percebe que passou a caminhar menos porque as pernas doem, isso é um sinal que merece avaliação vascular.
Isquemia crítica: quando a DAP vira emergência
A isquemia crítica de membro é o estágio mais grave da DAP — quando o fluxo arterial é tão reduzido que os tecidos começam a morrer. É uma emergência vascular que exige tratamento imediato para salvar o membro.
Sinais de isquemia crítica que exigem atendimento urgente:
- Dor intensa e constante no pé ou na perna, mesmo em repouso, especialmente à noite
- Ferida ou úlcera no pé, tornozelo ou perna que não cicatriza após 2 semanas de cuidados adequados
- Escurecimento ou necrose dos dedos dos pés (coloração azulada, roxa ou preta)
- Pé ou perna frios, pálidos ou com coloração alterada em comparação ao outro lado
- Perda de sensibilidade ou formigamento intenso no pé
Se você ou alguém próximo apresentar uma perna ou pé subitamente frio, pálido, com dor intensa e sem pulso — isso pode ser uma oclusão arterial aguda (trombo ou êmbolo bloqueando subitamente uma artéria). É uma emergência médica que exige atendimento imediato — ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro mais próximo. A janela para salvar o membro é de 6 horas.
Quem tem mais risco de desenvolver DAP? {#quem-tem-mais-risco}
Os fatores de risco para DAP são os mesmos da aterosclerose em geral:
Fatores de risco maiores:
- Tabagismo — o fator de risco modificável mais importante para DAP. Fumantes têm risco 4 vezes maior de desenvolver a doença, e a progressão é muito mais rápida
- Diabetes mellitus — aumenta o risco em 2 a 4 vezes e predispõe a formas mais distais e graves da doença
- Hipertensão arterial — lesiona o endotélio e acelera a aterosclerose
- Dislipidemia — especialmente LDL elevado e HDL baixo
- Idade > 50 anos — especialmente > 65 anos
Fatores de risco adicionais:
- Histórico familiar de doença cardiovascular precoce
- Insuficiência renal crônica
- Obesidade
- Sedentarismo
- Histórico de infarto ou AVC (indicam aterosclerose sistêmica)
Grupos que devem ser rastreados ativamente:
- Todos os adultos com > 65 anos
- Adultos com > 50 anos e tabagismo ou diabetes
- Adultos com < 50 anos e diabetes + outro fator de risco
- Qualquer pessoa com sintomas sugestivos de claudicação
DAP e diabetes: uma combinação perigosa
O diabetes merece destaque especial porque sua associação com a DAP é particularmente traiçoeira:
Por que o diabetes piora a DAP:
- Acelera a aterosclerose em artérias menores e mais distais (artérias tibiais e do pé) — tornando a revascularização mais difícil
- Causa neuropatia periférica — o diabético pode não sentir dor mesmo com isquemia grave, atrasando o diagnóstico
- Predispõe a infecções — úlceras isquêmicas no pé diabético infectam com mais facilidade e são mais difíceis de tratar
- Compromete a cicatrização — mesmo após revascularização bem-sucedida, a cura é mais lenta
O pé diabético com componente isquêmico é uma das causas mais comuns de amputação não traumática no Brasil. O rastreamento regular da circulação arterial dos pés em pacientes diabéticos — com exame clínico dos pulsos e índice tornozelo-braquial — pode identificar a DAP antes que ela evolua para úlcera ou gangrena.
Todo paciente diabético deve ser avaliado periodicamente pelo cirurgião vascular, mesmo sem sintomas.
Como é feito o diagnóstico?
Avaliação clínica
O cirurgião vascular avalia os pulsos arteriais nos membros inferiores (femoral, poplíteo, tibial posterior e pedioso), a temperatura e coloração da pele, e a presença de sopros arteriais (sons anormais nas artérias ao auscultar com estetoscópio).
Índice tornozelo-braquial (ITB) — o exame de triagem mais importante
O ITB compara a pressão arterial medida no tornozelo com a pressão no braço. Em pessoas saudáveis, a pressão no tornozelo é igual ou ligeiramente maior que no braço (ITB ≥ 1,0). Na DAP, a pressão no tornozelo está reduzida:
- ITB 0,9 a 1,0: limítrofe — monitoramento
- ITB 0,7 a 0,9: DAP leve — geralmente assintomática ou claudicação leve
- ITB 0,5 a 0,7: DAP moderada — claudicação significativa
- ITB < 0,5: DAP grave — isquemia em repouso ou lesões tróficas
- ITB > 1,3: artérias calcificadas (comum em diabéticos) — resultado não confiável, necessita de outros exames
Eco Doppler arterial
O ultrassom com Doppler das artérias dos membros inferiores visualiza as artérias, identifica placas e estenoses, mede a velocidade do fluxo e localiza os pontos de obstrução. É o exame de imagem de primeira linha — não invasivo, sem radiação e realizado pela Dra. Nelise Marvulo no próprio consultório.
Angiotomografia (AngioTC) e angioressonância
Exames de imagem que permitem mapear com detalhes o sistema arterial antes de procedimentos de revascularização — indicados quando há planejamento cirúrgico ou endovascular.
Arteriografia (cateterismo arterial)
O padrão-ouro para avaliação pré-cirúrgica detalhada — e também o método pelo qual se realizam os procedimentos endovasculares (angioplastia, stent) no mesmo ato.
Quais são os tratamentos disponíveis?
O tratamento da DAP tem dois objetivos simultâneos: melhorar os sintomas e a qualidade de vida e reduzir o risco cardiovascular (já que DAP indica aterosclerose sistêmica com maior risco de infarto e AVC).
Tratamento clínico — base de tudo
Controle dos fatores de risco:
- Parar de fumar — a medida isolada mais eficaz para frear a progressão da DAP
- Controle rigoroso da glicemia (diabéticos)
- Controle da hipertensão arterial
- Redução do LDL-colesterol com estatinas
- Antiagregação plaquetária (AAS ou clopidogrel) para reduzir risco cardiovascular
Programa de exercício supervisionado: A caminhada estruturada — progredindo até o limiar da dor, parando, retomando — é a intervenção não cirúrgica mais eficaz para a claudicação. Estudos mostram melhora significativa da distância de caminhada após 3 a 6 meses de programa supervisionado.
Medicamentos para claudicação: Cilostazol é o medicamento com maior evidência para melhora dos sintomas de claudicação — aumenta a distância de caminhada e melhora a qualidade de vida.
Tratamento endovascular (minimamente invasivo)
Angioplastia com balão: Um cateter com balão é introduzido pela artéria femoral (na virilha) e inflado no ponto de obstrução, comprimindo a placa e expandindo o lúmen arterial.
Stent: Uma mola metálica expandível é colocada na artéria para mantê-la aberta após a angioplastia. Indicado quando há recuo elástico da artéria ou lesões específicas.
Aterectomia: Remoção mecânica da placa aterosclerótica por dispositivos especiais — indicada em lesões calcificadas ou em artérias onde o stent é menos favorável.
Tratamento cirúrgico aberto
Bypass arterial (ponte): Criação de um desvio — usando veia safena do próprio paciente ou prótese sintética — que contorna o segmento arterial obstruído, restaurando o fluxo distal. Indicado em obstruções extensas ou quando o endovascular não é tecnicamente possível.
Endarterectomia: Remoção cirúrgica da placa aterosclerótica de dentro da artéria — geralmente indicada para lesões específicas como obstrução da artéria femoral comum.
Amputação — o desfecho que queremos evitar
Quando o membro não pode ser salvo — por necrose extensa, infecção grave ou impossibilidade técnica de revascularização — a amputação pode ser necessária. O objetivo de todo o tratamento da DAP é evitar chegar a esse ponto — e isso depende fundamentalmente do diagnóstico precoce.
DAP e risco cardiovascular: a conexão importante
A doença arterial periférica não é apenas um problema das pernas — é um marcador de aterosclerose sistêmica. Pacientes com DAP têm risco muito aumentado de:
- Infarto do miocárdio — 2 a 3 vezes maior que pessoas sem DAP
- AVC isquêmico — risco significativamente elevado
- Morte cardiovascular — principal causa de morte em pacientes com DAP
Por isso, o diagnóstico de DAP deve ser o gatilho para uma avaliação cardiovascular completa — incluindo rastreamento de doença coronariana e carotídea. O cirurgião vascular que trata a DAP trabalha em conjunto com o cardiologista e o neurologista para o manejo integrado do risco cardiovascular.
Perguntas Frequentes
Doença arterial periférica tem cura?
A aterosclerose que causa a DAP não tem cura — é uma doença crônica. Mas com controle rigoroso dos fatores de risco e tratamento adequado, é possível frear significativamente sua progressão, melhorar os sintomas e reduzir o risco de amputação e eventos cardiovasculares.
Posso caminhar com DAP?
Sim — e é altamente recomendado. O programa de caminhada supervisionada é um dos tratamentos mais eficazes para a claudicação. A dor ao caminhar não é perigosa na claudicação estável — é um sinal de que os músculos precisam de mais oxigênio, não de que a artéria vai “romper”.
DAP é a mesma coisa que arteriosclerose?
Arteriosclerose é um termo genérico para endurecimento das artérias. A aterosclerose (com placa de gordura) é o tipo mais comum e é a principal causa da DAP. Os dois termos são frequentemente usados como sinônimos no dia a dia, embora tecnicamente sejam distintos.
Parar de fumar melhora a DAP?
Sim — de forma significativa. Parar de fumar é a medida mais eficaz para frear a progressão da DAP, reduzir o risco de amputação e melhorar os resultados após revascularização. O benefício começa em semanas e se acumula ao longo dos anos.
O plano de saúde cobre o tratamento de DAP?
Sim — consultas com cirurgião vascular, exames diagnósticos (ITB, eco Doppler arterial) e procedimentos terapêuticos (angioplastia, bypass) geralmente têm cobertura pelos planos de saúde. A Dra. Nelise Marvulo não atende convênios, mas fornece toda a documentação necessária para reembolso junto ao plano de saúde do paciente.
Qual médico trata a doença arterial periférica?
O cirurgião vascular é o especialista de referência para diagnóstico e tratamento da DAP — tanto no manejo clínico quanto nos procedimentos endovasculares e cirúrgicos. O tratamento é frequentemente multidisciplinar, envolvendo também cardiologista, endocrinologista (nos diabéticos) e fisioterapeuta.
Não Ignore os Sinais: DAP Identificada Cedo é DAP Tratada
A doença arterial periférica é progressiva e silenciosa — mas identificada no momento certo, tem tratamento eficaz e as complicações mais graves podem ser evitadas. Se você tem fatores de risco ou percebe qualquer um dos sintomas descritos neste artigo, não adie a avaliação vascular.
A Dra. Nelise Marvulo é cirurgiã vascular e ecografista vascular, com atendimento individualizado no Jardim Paulista (Jardins), em São Paulo. Realiza diagnóstico completo de doença arterial periférica com eco Doppler arterial e índice tornozelo-braquial integrados à consulta, e define o plano de tratamento mais adequado para cada caso. Atende também por telemedicina para todo o Brasil e Exterior.
A Dra. Nelise não atende convênios, mas fornece toda a documentação necessária para reembolso junto ao plano de saúde do paciente.
📍 Jardim Paulista (Jardins) – São Paulo, SP 💻 Telemedicina disponível para todo o Brasil e Exterior
Dra. Nelise Marvulo – Cirurgiã Vascular e Ecografista Vascular CRM-SP 129.367 – RQE 46207 | 462071
As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento devem ser sempre individualizados por um especialista após avaliação clínica.